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Reflexões Sobre a Formação do Professor Leitor

“Os pais, a criança e o livro, a trindade perfeita. Não há criança que não espere com ansiedade a hora em que os pais sentam ou deitam com ela na cama e começam a desfiar histórias, algumas lidas, outras inventadas. É um tempo de prazer, sem outro compromisso que não seja o de viajar nas palavras. E ela quer mais, sempre mais, até que o pai ou a mãe, exausto, a convencem a dormir. Até esse momento somos pedagogos, mas sem nenhuma preocupação com a pedagogia”. Daniel Pennac

No encontro passado, ficamos a maior parte do tempo avaliando o trabalho de leitura, refletindo acerca dos movimentos que estamos fazendo e como estes têm empatados a todos nós. Ouvir muitos relatos positivos dos colegas, mas isso é facilmente notado no cotidiano de todo o corpo de coordenação. Eu sou um exemplo vivo desse trabalho, pois antes não me interessava por literatura e só lia para cumprir com obrigações e hoje depois de todo processo de transformação que venho passando leio com o olhar de um cientista das palavras, das possibilidades, do novo, do antigo, da bobagem que faz rir a uma historia que me faz chorar, pois me faz recordar de momento que vivi ou de noticias de gente tão diferente de mim e ao mesmo tempo tão parecida em mínimos detalhes.

Ler hoje é um desejo natural, como os outros corriqueiros que fazemos no dia-a-dia. Mas para, além disso, a leitura me tornou um ser humano melhor, mas responsável pelo mundo em que vivo e preocupado com o mundo que deixarei. Pois, aprendi a mergulhar no texto e me confundi com ele, em busca de seu sentido. Como diria Roland Barthes, quando compara o leitor a uma aranha:
“… o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nessa textura -, o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolve ela mesma nas secreções construtivas de sua teia.”

Dessa forma, o único limite para o crescimento enquanto leitor é a imaginação; é ele mesmo quem constrói as imagens acerca do que está lendo. Por isso ela se revela como uma atividade extremamente frutífera e prazerosa. Por meio dela, além de adquirirmos mais conhecimentos e cultura – o que nos fornece maior capacidade de diálogo e nos prepara melhor para atingir às necessidades pessoais ou profissionais-, experimentamos coisas novas, ao conhecermos mais o mundo em que vivemos e sobre nós mesmos, já que ela nos leva a uma reflexão e analise de nossas experiências pessoais com as compartilhadas pelo autor em que estamos lendo.

Hoje vejo isso tomando corpo dentro da minha equipe de trabalho e muitos têm assinado revistas, comprado livros técnicos e literários ou simplesmente tirando os livros da biblioteca da escola, ou seja, sentiram desejo de viver essa experiência com a leitura. Como afirma Rubem Alves
Ler é fazer amor com as palavras. E essa transa literária se inicia antes que as crianças saibam os nomes das letras. Sem saber ler elas já são sensíveis à beleza. E a missão do professor? Mestre do kama-sutra da leitura.

O professor exerce um papel fundamental nesse processo, e ai penso na voz de alguns dizendo: “mas tudo é responsabilidade do professor”, “já temos trabalho demais e ainda mais esse” ou “ e os pais onde ficam?”. Acontece que a nossa condição cultural e financeira é que dita as regras nesse caso. Pois duvido que esse seja problemas de proporções como as nossas em pais desenvolvidos, onde os pais têm uma rotina diária de vivencia com a leitura, enquanto aqui as maiorias dos alunos vivem numa realidade agrícola, onde a maior parte do tempo é dedicado a esses afazeres, a escola é um sonho, uma brincadeira ou passatempo (na visão de alguns pais) ou garantia do dinheiro do Bolsa Família.

O mundo literário não tem referência entre as pessoas de seu convívio, eles “vivem” ou “sobrevivem” sem ele. Nessa perspectiva o professor passa a ser o único referencial de leitor, porém grande parte também desses professores cresceram neste contexto, apenas tiveram sorte (eu vivi isso). Há, no entanto, uma condição para que a leitura seja de fato prazerosa: o desejo do leitor de ler. Como afirma Daniel Pennac, “o verbo ler não suporta o imperativo”. Então, como pode alguém que não possuem as habilidades de um leitor ensiná-las? Ou Como ensinar comportamentos leitores como se fosse uma técnica que aprendi com meu coordenar/formador? Fica claro que o professor precisa ter uma relação verdadeira com a leitura para que os estudantes sintam o desejo de ler também.

Com os investimentos, os alunos já estão lendo mais, a biblioteca estão sendo mais valorizadas e a leitura vive seu momento de intensa paquera e muitos namoros firmes já se formou, o casamento é questão de tempo. Nessa rede de investimentos é que vão mudar o quadro e acredito que para as próximas gerações de educadores não serão tão difíceis, pois já se instalou uma cultura de leitura na escola.

Já vemos hoje muitos alunos exercendo o seu direito de leitor como: o de escolher o que quer ler, o de reler, o de ler em qualquer lugar, ou, até mesmo, o de não ler. Devemos garantir a preservação desses direitos, para que o leitor, da mesma forma, passe a respeitar e valorizar a leitura. Dessa forma estaremos criando, então, um vínculo indissociável. A leitura passa uma espécie de “força gravitacional” que atrai e prende o leitor, numa relação de amor da qual ele não deseja desprender-se.

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